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A posição de vítima

Foto do escritor: ESPEcastESPEcast

A culpa e a inocência.

O culpado e a vítima.

O obediente e o autoritário.

Essas são quatro figuras que habitam o romance da neurose.

No episódio 92 do ESPECast, disponível no YouTube e no Spotify, o professor Daniel Omar Perez aborda essas questões.

Boa leitura!

 

Considerações filosóficas

No ano de 1783, um pequeno texto do filósofo alemão Immanuel Kant, dedicado ao público geral e intitulado “O que é o esclarecimento” definia o termo “esclarecimento” como “a libertação do homem da sua culpável incapacidade” Entendamos incapacidade aqui como a impossibilidade de se servir de sua inteligência sem a direção de outro indivíduo. Kant segue dizendo que o homem é o próprio culpado dessa incapacidade porque sua causa não reside na falta de inteligência, mas na decisão e no valor de se servir por si mesmo dela, sem a tutela de outrem.

A preguiça e a covardia, diz Kant em seu texto, são a causa de que uma grande parte dos homens continue, em bom gosto, neste estado de discípulo. Para que eu vou me dedicar a pensar por mim mesmo se existe, por exemplo, um livro que diz como é que eu devo levar minha vida adiante? Para que eu vou pensar e refletir sobre a minha ética e meus valores morais se existe um padre ou pastor que me diz o que é bom e o que é mal? Para que vou cuidar da minha saúde, tanto física quanto psíquica, se existe um médico que me diz exatamente o que devo fazer?

“Esse estado de discípulo – disse Immanuel Kant – é um estado, ao mesmo tempo de submissão, mas ao mesmo tempo bastante confortável porque, de alguma forma não nos coloca como responsáveis por aquilo que nos venha a acontecer caso essas receitas do livro, do padre, do pastor, do médico, venham a falhar” – comenta o professor Daniel ressaltando outra passagem do texto de Kant. 

Então, segundo Immanuel Kant, o problema do esclarecimento é um problema de covardia. “Isso me remete à ideia de covardia do neurótico de Sigmund Freud, essa impossibilidade do neurótico de dar o passo para poder levar adiante aquilo que lhe diz respeito do desejo enquanto tal.” – pontua professor Daniel – “Nesse sentido, o neurótico, assim como o sujeito de minoridade de Kant, fica nessa posição de obediente, mas ao mesmo tempo de uma obediência que culpa o outro caso a situação não funcione ou, se alguma forma, essa obediência me reprime enquanto aquilo que eu gostaria de desejar porque há um outro que manda em mim e esse mandato deveria ser cumprido. Isso gera uma espécie de submissão ad aeternum, em que se gera uma relação que poderíamos dizer de mão dupla”  - complementa.

Essa “relação de mão dupla” se daria porque aquele que manda cria as condições para manter aquele que obedece e aquele que obedece, por uma questão da situação na qual ele se encontra, acaba por não sair desse lugar. “Essa situação não é sem uma relação de conformidade, mas também não é sem uma relação de ressentimento, de ódio, podemos dizer.” – comenta Daniel.

Nietzsche e o Ressentimento

Antônio Edmilson Paschoal escreveu um livro que se chama “Nietzsche e o Ressentimento”. Ele apresenta sua obra dizendo que Nietzsche não foi o primeiro a falar sobre o ressentimento no universo da filosofia, tendo esse assunto sido abordado, por exemplo, por Karl Eugen Duhring ou Michel de Montaigne.

“Para fazer justiça à construção do conceito de ressentimento” – nos diz Edmilson Paschoal, citado pelo professor Daniel em sua leitura – “como encontramos nos escritos de Nietzsche, também devemos levar em conta a influência de vários autores.” 

Nietzsche então, para poder pensar a noção de ressentimento, a noção do sujeito ressentido em uma posição de uma relação de força com o outro, é influenciado por autores da literatura russa, por exemplo, como Dostoièvski, e outros filósofos como Spinoza. “De fato Nietzsche” – diz Paschoal – “não é um pensador autóctone e desvinculado de seu tempo, mas um filósofo que se insere em uma longa tradição cultural e dialoga com ela. ”

“Paschoal entende que, nesse trabalho de pensar o ressentimento, verificamos, no refino psicológico que confere ao termo, quando o utiliza para delinear um tipo de homem incapacitado para o esquecimento. ” – comenta professor Daniel – “Ou quando é utilizado na caracterização de uma forma de valorar próxima, também de uma concepção de direito que constitui a sacralização da vingança em nome da justiça.” – nas palavras de Paschoal. 

O ressentimento então é entendido como uma posição em uma luta de forças na qual há uma incapacidade, mas não uma incapacidade de se ilustrar ou de utilizar a própria inteligência, como no caso de Kant, mas uma incapacidade para o esquecimento.


Dostoièvski

Essa incapacidade seria um dos pontos centrais da configuração dos personagens de Dostoièvski. O famoso autor russo construiu seus romances a partir da ideia de que os personagens não podem esquecer. 

“Isso me levou também a ver outro livro: As Vozes do Supereu, de Marta Gerês-Ambertin” – diz o professor Daniel – “Quando ela apresenta a sua obra, ela diz que ela trata da questão do supereu ou a voz da consciência. De alguma forma, temos uma voz da consciência que nos impulsiona, nos obriga, nos manda a obedecer. Essa voz da consciência, acompanhada em toda a obra de Freud, nos diz Marta Gerês-Ambertin, nos propõe abordar essa voz a partir de um estudo exaustivo sobre a formulação do supereu também em Lacan e nos seus seminários.”

Para poder entender esse supereu que manda e esse sujeito que obedece e, portanto, fica em uma posição de minoridade, ela cita também Dostoièvski e sua obra Os Irmãos Karamazov.


 
Conclusão

É interessante ver, entre Kant e Nietzsche, entre Freud e Lacan, como, a partir da leitura que eles fazem de alguns romances, de algumas tragédias, e que fazem de alguns casos clínicos, eles começam a desenhar o romance do neurótico, no qual o sujeito se coloca uma posição de obediência e repete esta posição com o adendo da impossibilidade de sair. 

Immanuel Kant nos falava que era preciso e necessário ter coragem para poder sair dessa posição de minoridade e pensar por si mesmo. Quando não temos essa coragem nos transformamos, como diz Nietzsche, em homens de ressentimento e, quando o fazemos, não podemos esquecer. Quando não podemos esquecer, continuamos a repetição dessa posição de obediência. 

A partir de Freud e de Lacan, há uma possibilidade de que seja pertinente pensar a psicanálise como uma experiência de tratamento clínico em que o sujeito não se torne mais inteligente ou não se torne mais esqueleto, mas torna-se, talvez, um outro sujeito que seja capaz de se colocar diante do outro não em uma posição de culpado ou de vítima, de inocente ou de cruel, de vingativo, de submisso ou de autoritário. O que Freud e Lacan nos convidam a pensar é que a elaboração clínica talvez nos possa dar outras saídas a essa situação para que possamos escrever a história no nosso romance de maneira diferente a de Dostoièvski ou de boa parte da literatura russa. 

Se quiserem saber mais sobre a neurose e a posição do sujeito nela, entrem na plataforma ESPECast, onde vocês vão encontrar mais de 200 horas de material sobre diversos temas da psicanálise, entre eles o lugar do culpado, da vítima, do obediente, do autoritário, do neurótico. 

Até nosso próximo texto. 


Assista ao episódio completo:



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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio:

Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.




 
 
 

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