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A Vida em Conjunto

Como viver juntos? O ser humano tem sido definido de muitos modos na tradição greco-latina-europeia e a maioria dessas definições o coloca como um “animal social. ”

Este é o tema do episódio 79 do ESPECast, disponível no YouTube e no Spotify. 

Boa leitura. 

 

O ser humano como animal social

O ser humano tem sido definido de muitos modos na tradição greco-latina-europeia e a maioria dessas definições o coloca como um “animal social”, ou seja, como um ser que se relaciona com outros seres, também humanos. Seria sua característica fundamental, seu traço essencial. Mas concordemos que não parece ser tão simples assim na vida cotidiana e na história.

Se pensarmos nas guerras entre os povos, nas brigas entre as pessoas, nos mal-entendidos, mesmo entre aqueles que têm muitas coisas em comum, nas discussões familiares ou nos distanciamentos entre amigos, podemos dizer ainda que viver juntos, mais que uma definição, é algo assim como uma tarefa, e, por sinal, nem sempre é uma tarefa fácil de ser realizada.” – pontua o professor Daniel.

Neste sentido, acaba sendo um problema que muitos pensadores na história da filosofia têm tomado como questão. No século XIX, Karl Marx por exemplo definiu o ser humano pela sua capacidade de transformar a natureza através do trabalho, que, segundo ele, não seria outra coisa senão a força geradora da riqueza em uma sociedade. Quando o trabalho produz riquezas para outros, o homem fica alienado, infeliz, pois não passa de uma mera peça na maquinaria da produção. 

Isso é o que acontece na sociedade capitalista.

Quando o homem produz riquezas para si, ele é um ser que se realiza em atividade que é essencialmente social. Segundo Marx e o marxismo, isso é o que aconteceria em uma sociedade sem propriedade privada. É por meio do modo como a sociedade se apropria da riqueza produzida pelo trabalho de cada um que se definem o tipo de sociedade e o tipo de ser humano que surge dela.

Assim, teríamos, portanto, de um lado, um ser humano reduzido aos mecanismos de produção e do outro, continuando essa linha de reflexão, um que consome segundo sua necessidade e produz segundo sua possibilidade. 

Socialismo e capitalismo seriam dois modos, radicalmente diferentes, dos homens conviverem, viverem juntos.

Aristóteles

Quando Aristóteles, nos anos 300 a.C, no seu livro Política, definia a natureza do homem como animal dotado de palavra, não duvidava em acrescentar também o termo político. A palavra e a política, como atividades do ser humano, traçam seu desenho em relação com os outros seres. A palavra, para Aristóteles, serve para se comunicar com outros, também dotados de palavra, e a política é um modo em que os seres humanos podem alcançar o bem vivendo em comunidade. O ser humano seria, assim, um Zoon, Logikon, Politikon. Tanto a palavra quanto a política indicam que o homem só pode ser homem na medida em que se realiza socialmente.

Ser como o outro é uma necessidade natural para Aristóteles. É a natureza que determina a união entre o homem e a mulher, diz ele, não por escolha, mas por desejo. Deste modo, desenvolve-se um impulso natural a se propagar da mesma forma que nos outros animais e nas plantas.

A família também é uma relação com os outros, estabelecida naturalmente para suprir as necessidades diárias dos seres humanos, como comer ou proteger-se.  A união dos homens em famílias - em várias famílias -  formam as aldeias ou comunidades de famílias. E a união das aldeias, em uma comunidade autossuficiente, deve nomear-se a cidade ou estado, cujo fim é assegurar o bem viver.

Como o ser humano é portador de palavra e através dela pode dizer o que convém e o que não convém, o que é conveniente e o que não é conveniente, o que é justo e o que não é justo, ele também pode alcançar uma opinião comum acerca desses temas e fundar uma comunidade. Por esse motivo, para Aristóteles, a comunidade é mais importante que o próprio indivíduo, já que é nela que ele, o indivíduo, pode obter sua felicidade. 


Posso ser eu sem os outros?

Se perguntássemos para Aristóteles então: “Posso ser eu sem os outros? ”

Imediatamente ele daria uma resposta onde encontraríamos algo como um sub-humano ou um super-humano. Uma besta, ou um deus, é o que não precisa viver junto com os outros. 

“Aristóteles cita as palavras de Homero para se referir ao amante da guerra, ao guerreiro insano, alguém sem família, sem lei, sem lar, aquele que vive sem os outros, como aquele que por natureza não pode viver em comunidade e o define como um não colaborador. Trata-se de colaborar com o outro para poder ser eu mesmo e viver em comunidade. ” – comenta o professor Daniel concluindo que essa seria a função e, ao mesmo tempo, a base de viver junto.

Em última análise, administrar justiça em Aristóteles não seria outra coisa que poder manter a possibilidade de viver juntos, procurando atingir o fim natural dos seres humanos: a felicidade. Do lado de fora, ou em oposição, estão aqueles que não querem ou não podem colaborar, seja por questões afetivas ou sociais.

Fora disso estão aqueles que são muito bons ou muito maus, os santos ou os malvados. Ao contrário, isto é, a injustiça, está representada por aqueles que estão repletos de luxúria e de gula e que acabam corroendo a possibilidade do convívio com elementos de ostentação e de desprezo. A injustiça torna-se insuportável ao estar em contato com o outro nessas condições.

A injustiça impede aos homens, aos seres humanos, de viverem juntos e, mais ainda, quando o ato injusto é impune. É a cara do fora, do limite e da sociabilidade. Tudo se passa como se fosse imprescindível estar com os outros para sermos nós mesmos. Mas a pergunta é: a que distância? Ou ainda: por quanto tempo?

Em uma relação de amor, os amantes parecem precisar estar quase grudados o tempo todo. Cinco minutos é uma eternidade e meio metro é um universo. Em uma relação de trabalho, o tempo diminui e a distância aumenta.

“Tem pessoas que não podem estar muito tempo juntas porque se sentem incomodadas pelo outro.” – comenta o professor Daniel. -  “Nós mesmos sentimos uma espécie de atropelamento quando alguém se aproxima demais do nosso corpo. Para falar com outra pessoa a menos de 30 centímetros de distância, precisamos de alguma intimidade, do contrário nos sentimos invadidos. Talvez o grande problema aqui seja como administrar o espaço e o tempo dessa relação.” – conclui o professor Daniel.


 
Assista ao episódio completo


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Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio:

Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.




 
 
 

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