top of page

o limite da incoerência

Atualizado: 21 de fev.

No episódio 93 do ESPECast, disponível no Spotify e no YouTube, o professor Daniel Omar Perez vai questionar quais são os limites da coerência. 

Até onde o ser humano é incoerente? Até onde temos que, de certa forma, sustentar princípios até as últimas consequências? Até onde esses princípios se tornam dogmas?

Vamos juntos descobrir.

Boa leitura!

 

Dimensões da questão

Quando estamos sendo coerentes e quando estamos sendo dogmáticos ou extremamente rígidos?

Quando somos flexíveis, ou seja, quando podemos aceitar os argumentos do outro e quando estamos sendo relapsos ou incoerentes no sentido de uma hora dizer uma coisa e em outro momento dizer outra. 

Este é um problema da nossa vida cotidiana que nos permite questionar qual é o limite da coerência e quando esse limite é ultrapassado? Quando é que devemos sustentar uma argumentação?

Tal problema pode aparecer como: 

  1. um problema existencial;

  2. uma forma de reconhecimento de identidade onde o sujeito coloca: “ — Essa é minha identidade. Esses são os meus princípios.”;

  3. um problema filosófico

Tal problema também pode ser um problema filosófico.

Os sofistas x Sócrates

No sul da Itália e na Grécia Antiga, no século VI, V a.C, havia um grupo de vendedores de discursos: eram os sofistas. Os sofistas vendiam esses discursos para que pessoas pudessem convencer outras, às vezes em algum pleito de caráter jurídico, às vezes para tentar convencer uma assembleia a votar em alguma ideia, dentre outros tipos de discurso.

Esse é o ponto em questão. A verdade, para os sofistas, dependia das circunstâncias: o que é verdadeiro para as circunstâncias de hoje não é necessariamente verdadeiro para as circunstâncias de amanhã. 

A coerência, assim, era relacionada às circunstâncias: posso levantar determinados princípios em determinadas circunstâncias e posso levantar outros princípios em outras circunstâncias.

Um adversário dos sofistas era Sócrates. Sócrates, pelo menos a partir dos diálogos de Platão, entendia que a verdade não dependia. A verdade verdadeira, coloquemos nestes termos, não a mera verdade, a mera doxa, ou seja, a mera crença ou opinião popular comum.

Para Sócrates, o que muda é a doxa, a opinião, e não a verdade. A verdade verdadeira não muda nem pelas circunstâncias, nem pelas assembleias, nem pelo número de pessoas que decidem que as coisas mudam. “Dois mais dois são quatro nas circunstâncias que quiser.” – exemplifica o professor Daniel – “Então, não posso mudar de opinião. Não posso mudar segundo as circunstâncias, se elas me favorecem ou me desfavorecem.

Sendo assim, podemos concluir, a simples vista,  que existem então dois tipos de verdades diferentes: as verdades lógicas, matemáticas e as verdades que dependem da contingência, das circunstâncias.



Aristóteles e a Ética da Prudência

Em função do que ele entende como prudência, Aristóteles, que era discípulo de Platão, elabora uma ética: a ética da prudência. Eu devo manter certos princípios de ação de acordo com as circunstâncias tentando encontrar um meio termo, ou seja, nem muito muito e nem pouco pouco.

Pela ética da prudência se tem máximas e regras que dependem das circunstâncias. Em algumas dessas circunstâncias, um ato pode ser considerado corajoso. Em outro momento, ou seja, em outras circunstâncias, este ato pode ser considerado como um ato temerário, como um ato de loucura. É preciso encontrar então, de acordo com essa ética, uma justa medida. 

Há outras normas, na história da filosofia, que nos propõe pensar certas normas que, por ora, podem depender de princípios racionais e, portanto, devem ser universais e fixas, e, por ora, possam depender de circunstâncias culturais, sociais, religiosas e tradicionais. Diferentes culturas têm diferentes princípios e estes princípios valem para estas culturas. As circunstâncias, portanto, mudariam de uma cultura para outra, assim como a coerência.

A coerência pode mudar de uma época da sociedade para outra época dessa mesma sociedade. “O que poderia ter sido razoável e coerente para o modo de vida dos anos 80 e 90 pode não ser razoável e coerente para o modo de vida dos anos 2020.”  - exemplifica o professor Daniel salientando que o problema perdura e não é de fácil solução. 


Na psicanálise

Na psicanálise podemos nos aferrar a princípios dos quais não lançamos mão justamente porque eles podem nos dar a ilusão de uma garantia. Assim, diante da experiência de desamparo, diante da experiência de estar sozinho, diante da experiência de não ter garantias na vida, as circunstâncias podem mudar. 

“De alguma forma, nosso aparelho psíquico, nossa psique, o inconsciente, se  articula de tal forma que produzimos algo assim como um mecanismo de defesa.” – explica Daniel. – “Diante da vulnerabilidade da vida, nos aferramos a determinados princípios. E aí aparece o que muitas vezes construímos e chamamos no discurso coloquial de caráter. Meu caráter é assim e eu não vou mudar de jeito nenhum.”

Muitas vezes a rigidez do caráter implica na tentativa de se encontrar, ou pretender encontrar, elementos que permitam ao sujeito uma garantia de que as coisas não vão mudar. 

Como salienta o professor Daniel, existem também situações de mero oportunismo, quer dizer, mudamos nossos princípios de acordo com o que nos convém e na situação que nos convém. Neste caso já não estamos mais tratando do desamparo, mas sim de outro mecanismo de defesa que pode ser, às vezes, consciente, mas também pode ser inconsciente. Nós podemos mudar nossos princípios, nossas convicções, nossas certezas, porque precisamos pertencer a um grupo. Então, a necessidade de reconhecimento - às vezes consciente, às vezes inconsciente – faz que, de alguma forma, abandonemos aquilo que pensamos e aquilo que acreditamos e adotemos outras formas de regras, de normas, de princípios. 



 
Conclusão

Sustentar determinados princípios pode ser uma defesa ao desamparo. Pode ser também uma forma de tamponamento de angústia, pode ser uma forma de não ficar sozinho.  Mudar nossas convicções pode ser uma forma de apelo ao reconhecimento do outro. “Me reconheça, porque eu penso igual a você.”  Por isso eu abandono aquilo que penso para fazer parte do grupo.

Dessa forma, o sujeito se protege da intempérie, do desamparo, e da solidão, sendo coerentes, ou não.


Até nosso próximo texto. 


Assista ao episódio completo:




Quer saber mais?

Conheça nossa plataforma online dedicada à transmissão da psicanálise. São mais de 300 horas de cursos e conteúdos ligados ao campo da psicanálise, produzidos por pesquisadores(as) e analistas que são referência no Brasil e no mundo.



 

Transcrição e adaptação:

Gustavo Espeschit é psicanalista, professor e escritor. Pós-graduado em Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE/UniFil e Pós-graduado em Clínica Psicanalítica Lacaniana pela mesma instituição. Formado em Letras Inglês/Português com pós-graduação em Filosofia e Metodologia do Ensino de Línguas.


Autor do episódio:

Daniel é psicanalista, pesquisador e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutor e Mestre em Filosofia pela Unicamp, com pós-doutorado na Michigan State University nos EUA e em Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn na Alemanha. Autor de diversos livros de Filosofia e Psicanálise. Obteve o título de licenciado em filosofia em 1992 na Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Publicou artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros sobre filosofia e psicanálise.




 
 
 

Comments


© 2021  ESPECAST PRODUCOES LTDA.

bottom of page